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Redes sociais: A manipulação da informação

Redes sociais: A manipulação da informação.

ESTAMOS MAIS INFORMADOS OU APENAS MAIS INFLUENCIADOS ? 

Algoritmos, censura digital, popularidade artificial e influência política.

Em 2011, o noEnigma já questionava o poder das redes sociais. Quinze anos depois, essas perguntas tornaram-se ainda mais pertinentes.

Houve um tempo em que a Internet representava uma verdadeira revolução no acesso ao conhecimento. Qualquer pessoa podia criar uma página, participar num fórum, publicar uma investigação ou partilhar uma descoberta. Hoje, nunca tivemos tanta informação disponível, mas estamos cada vez mais dependentes de plataformas privadas para decidir aquilo que vemos e partilhamos.

A manipulação da informação nas redes sociais não se limita às notícias falsas. Inclui a fabricação de popularidade, a influência política organizada, os interesses económicos, a moderação pouco transparente e o poder dos algoritmos sobre a visibilidade dos conteúdos.

Em 2011, o noEnigma já questionava o futuro das redes sociais

A 6 de fevereiro de 2011, o noEnigma publicou «O Twitter, O Facebook e a Revolução de Comunicar». Na altura, o mundo acompanhava as revoluções na Tunísia e no Egito. As redes sociais eram apresentadas como ferramentas capazes de mobilizar populações e acelerar a circulação da informação.

Mas o artigo levantava uma pergunta que continua atual: se estas ferramentas podiam ajudar a transformar regimes, que consequências poderia ter o seu poder sobre a sociedade?

A 19 de fevereiro de 2011, publicávamos «Reflexões sobre o Facebook», um texto da colaboradora Fernanda, sobre a exposição involuntária de fotografias, a vida privada e a transformação das relações humanas.

Eram duas abordagens complementares: uma sobre o poder político da comunicação digital, outra sobre as consequências humanas da exposição online. Em 2011, questionávamos o poder das redes sociais para transformar o mundo. Em 2026, questionamos também o poder de quem as controla.

Reddit: quando partilhar um link pode acabar numa expulsão

O Reddit reúne comunidades onde se discutem assuntos e partilham ligações. No entanto, um link pode ser considerado spam, removido e, em determinadas circunstâncias, resultar na expulsão de quem o publicou.

O spam deve ser combatido. Mas existe uma diferença fundamental entre rejeitar um conteúdo e expulsar um utilizador. Se uma ligação viola uma regra, porque não removê-la e explicar o motivo? A moderação deve ser proporcional, transparente e permitir contestação.

Uma comunidade que elimina o debate em vez de o moderar corre o risco de se tornar um espaço de concordância obrigatória.

Instagram, Facebook e o negócio da popularidade artificial

Milhares de seguidores e milhões de visualizações criam uma aparência de importância. Mas existe um mercado de likes, seguidores e comentários artificiais. Algumas operações recorrem a contas falsas ou automatizadas para simular interesse genuíno.

Uma publicação pode parecer popular sem ter o apoio real correspondente. A publicidade identificada é diferente da compra clandestina de interações falsas, mas ambas recordam que a visibilidade depende também de dinheiro e estratégias de promoção.

A verdade não se mede em likes. Uma mentira não se transforma num facto porque milhares de contas a repetem.

Manipulação política nas redes sociais: uma realidade documentada

A influência política organizada nas redes sociais não é uma hipótese sem fundamento. O Oxford Internet Institute documentou, num relatório publicado em 2021 sobre o ano de 2020, evidências de manipulação organizada em 81 países.

Entre os métodos analisados estavam contas falsas, automatização e campanhas coordenadas, com participação, consoante os países e os casos, de atores políticos e empresas privadas. Isto não significa que todas as opiniões políticas online sejam manipuladas. Significa que existem operações organizadas destinadas a influenciar a perceção pública — e que estas devem ser escrutinadas, independentemente de quem delas beneficia.

Comentários, contas falsas e a fabricação de consensos

Quem acompanha discussões políticas encontra frequentemente comentários semelhantes, argumentos repetidos e reações em massa. Nem tudo é manipulação: pessoas reais também seguem tendências e partilham opiniões. Mas existem operações documentadas que recorrem a contas falsas e participação coordenada para criar a aparência de apoio popular.

O objetivo nem sempre é convencer diretamente. Pode bastar criar a impressão de que uma posição é consensual. A manipulação não precisa de convencer toda a gente; por vezes, basta fazer parecer que todos os outros já estão convencidos.

Os interesses económicos por detrás da informação

Facebook, Instagram, YouTube, TikTok, Reddit e X são plataformas com modelos de negócio. A atenção dos utilizadores tem valor económico: mais tempo de utilização significa mais oportunidades de apresentar publicidade e aperfeiçoar recomendações.

Uma publicação polémica pode gerar mais reações do que uma análise rigorosa. Isso não prova que todos os algoritmos favoreçam a desinformação, mas demonstra que o interesse comercial e a qualidade informativa nem sempre coincidem.

Empresas e organizações também podem financiar campanhas de comunicação. Quando a autoria e o financiamento são transparentes, trata-se de comunicação identificável; quando se escondem identidades e se fabricam apoios, entramos no terreno da manipulação.

Censura digital: quem decide o que podemos publicar?

As plataformas precisam de combater ameaças, fraude, assédio e conteúdos ilegais. Contudo, a moderação necessária não dispensa explicações, proporcionalidade e mecanismos de recurso. Uma publicação pode ser removida por razões legítimas, por erro ou por uma aplicação discutível das regras.

O Regulamento dos Serviços Digitais da União Europeia introduziu obrigações de transparência e mecanismos de contestação de determinadas decisões de moderação. É um reconhecimento da importância pública de decisões tomadas em plataformas privadas.

Não devemos confundir toda a moderação com censura. Mas também não devemos aceitar que a palavra «moderação» justifique automaticamente qualquer decisão.

A Internet está a perder a sua memória?

Antes do domínio das grandes redes sociais, blogs, fóruns e websites independentes reuniam anos de experiências, discussões e conhecimento. Não eram espaços perfeitos, mas permitiam regressar a conteúdos antigos e acompanhar a evolução das ideias.

O noEnigma é um exemplo: os artigos de fevereiro de 2011 continuam acessíveis. Em contrapartida, uma parte crescente da informação atual circula em publicações efémeras, vídeos curtos e recomendações que rapidamente desaparecem do ecrã.

Não é que a Internet tenha deixado de preservar conteúdos. É que a nossa experiência de informação se tornou mais fragmentada, acelerada e dependente de plataformas.

Inteligência artificial: a próxima dimensão da manipulação

A inteligência artificial permite produzir textos, imagens, vídeos e vozes com qualidade crescente. Pode apoiar a educação, a ciência e a divulgação do conhecimento, mas também facilitar campanhas de desinformação, identidades fabricadas e comentários automatizados.

A tecnologia não inventou a manipulação da informação. Pode, contudo, torná-la mais rápida, mais barata e mais difícil de detetar. A questão passa a ser não apenas se uma notícia é verdadeira, mas também se uma conversa é espontânea e se a imagem que vemos corresponde a um acontecimento real.

Estamos mais informados ou apenas mais influenciados?

Em 2011, o noEnigma refletia sobre uma Internet capaz de aproximar pessoas e transformar sociedades. Quinze anos depois, é impossível ignorar a popularidade fabricada, a influência política organizada e a concentração do poder de distribuição da informação.

Não é necessário imaginar uma entidade única a controlar toda a Internet. Diferentes interesses económicos, políticos e tecnológicos disputam diariamente a nossa atenção — e essa disputa condiciona o que vemos.

Talvez o maior problema não seja apenas a informação falsa que circula. Talvez seja também a informação verdadeira que não chega até nós, as opiniões que desaparecem no ruído e a dificuldade em distinguir conhecimento de propaganda.

Em 2011, perguntávamos até onde poderia chegar o poder das redes sociais. Em 2026, a pergunta é outra: até onde estamos dispostos a deixar que esse poder condicione a nossa forma de pensar?

Uma sociedade não se torna mais informada por receber milhões de publicações. Torna-se mais informada quando os cidadãos conseguem procurar, comparar, questionar e formar as suas próprias conclusões.

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