A 28 de abril de 2025, às 12h33 em Espanha (11h33 em Portugal), toda a Península Ibérica ficou sem luz. A ENTSO-E, a rede europeia dos operadores de transporte de eletricidade, classificou-o como o incidente mais grave na rede europeia em mais de 20 anos. Portugal só recuperou a rede de alta tensão às 00h22 do dia seguinte; Espanha por volta das 04h00.
O que concluíram os peritos
A resposta oficial chegou a 20 de março de 2026, com o relatório final do painel de peritos da ENTSO-E. A conclusão central: o sistema elétrico espanhol não conseguiu controlar a tensão. Oscilações, seguidas de uma subida de tensão, fizeram desligar centrais em cascata até a península se separar da Europa e colapsar. Ciberataque, excluído. E a culpa não foi do excesso de renováveis em si, mas da forma como todas as centrais, renováveis incluídas, estavam preparadas (ou não) para controlar a tensão.
O artigo segue o raciocínio em três partes. Primeiro, o problema: a física que fez a tensão subir e quem a devia ter segurado. Depois, a nossa tese: usar o sol e o vento para produzir hidrogénio, com as hídricas a segurar a rede e o hidrogénio a voltar à rede quando é preciso. Por fim, as contas que sustentam cada passo.
A linha que se porta como um condensador
Uma linha de muito alta tensão é, ao mesmo tempo, um condensador e uma bobina. Os cabos e o solo formam as "placas" de um condensador gigante; a corrente que passa cria um campo magnético, como numa bobina. Os dois efeitos puxam a tensão em sentidos opostos:
- Efeito capacitivo (QC): gera potência reativa e faz subir a tensão. Depende só da tensão (V), por isso está sempre presente, com ou sem consumo.
- Efeito indutivo (QL): consome potência reativa e faz descer a tensão. Cresce com o quadrado da intensidade (I), ou seja, com a carga transportada.
O ponto de equilíbrio chama-se carga natural da linha (surge impedance loading, SIL). Abaixo dele, a linha comporta-se como condensador e a tensão sobe — o chamado efeito Ferranti. Acima dele, comporta-se como bobina e a tensão desce.
É aqui que a intuição costuma trocar o sinal. O problema não é muita carga: muita intensidade faz a tensão descer. O problema é pouca intensidade nas linhas, que deixa o efeito condensador dominar. Foi exatamente o cenário do meio-dia de 28 de abril. As contas 1 a 3, no fim do artigo, põem números nesta ideia.
Tem tensão, mas não alimenta nada
A comparação com um condensador ajuda a perceber o resto. A linha pouco carregada tem corrente capacitiva a circular, mas essa corrente é reativa: a energia vai e volta a cada ciclo, sem realizar trabalho. Não acende uma lâmpada. Só empurra a tensão para cima e ocupa capacidade da linha.
- Potência ativa (W): a que alimenta os consumos. A 28 de abril havia de sobra, graças ao sol.
- Potência reativa (var): a que mexe com a tensão. As linhas pouco carregadas geravam-na, e alguém tinha de a absorver.
O apagão resume-se nesta frase: havia potência ativa a mais e capacidade a menos para absorver a potência reativa.
O mix daquele meio-dia
Antes do apagão, mais de metade da eletricidade espanhola vinha do sol, e só cerca de um quarto vinha de centrais síncronas, as que ajustam a potência reativa à tensão.
Espanha produzia mais do que consumia: cerca de 32.300 MW gerados para 25.500 MW de procura (Portugal, nessa altura, importava). O que fazia a diferença era o sol: só a solar fotovoltaica dava cerca de 17.600 MW, perto de 70% da procura espanhola; somada à eólica (cerca de 3.000 MW), cobria cerca de 81%. Nesse dia, o excesso era de cerca de 6.800 MW, quase todo graças ao sol, porque era meio-dia; noutras horas e noutros dias é o vento que gera excesso, incluindo à noite. A nuclear injetava apenas cerca de 3.300 MW e o gás estava entre os valores mais baixos dos últimos anos. A hídrica pesava mais do que o habitual no total, depois de uma primavera muito chuvosa, embora só uma parte das centrais hídricas estivesse a produzir.
Mas não era um dia recorde. O solar (fotovoltaico e termossolar) chegou aos 59,7% às 12h30, e já tinha passado os 60% nos dias 21, 23, 24 e 25 de abril, com recorde de 63,5% a 25 — sem apagão. Ou seja: muito solar torna a rede mais exigente, mas não a derruba sozinho. O que a derrubou foi a falta de quem absorvesse a potência reativa.
Quem devia segurar a rede
Na véspera, a Red Eléctrica programou apenas 10 centrais síncronas para controlar a tensão no dia 28 — o programa mais baixo desde o início de 2025, segundo o Governo espanhol. Uma ficou indisponível e sobraram 9; um senador espanhol afirmou que o habitual eram 14. A Red Eléctrica contesta que mais centrais tivessem evitado o apagão e atribui a falha às centrais que não cumpriram a obrigação de controlo de tensão; os peritos europeus repartem as responsabilidades.
E as que estavam ligadas não fizeram tudo o que deviam. Os peritos europeus apontam quatro falhas no "travão" da tensão:
- Centrais convencionais aquém do pedido. Várias centrais nucleares, de gás e hídricas não absorveram a potência reativa que o operador lhes pedia.
- Renováveis em fator de potência fixo. As regras espanholas obrigavam solares e eólicas a absorver reativa em proporção à sua produção. Quando a produção caiu cerca de 500 MW entre as 12h32m00 e as 12h32m48, a absorção caiu com ela.
- Reatâncias paradas. Havia uma capacidade substancial de reatâncias em derivação (as "bobinas" que absorvem reativa) disponível, mas não foi ativada durante a subida de tensão.
- Proteções a disparar cedo demais. Muitas renováveis desligaram-se antes de a tensão atingir os limites regulamentares; algumas tinham as proteções de sobretensão reguladas abaixo desses limites.
Há ainda um pormenor coerente com o efeito capacitivo: para amortecer as oscilações, os operadores ligaram mais linhas no sul de Espanha e reduziram as exportações para França. O relatório regista que isso fez subir a tensão; a nossa leitura é que mais linhas pouco carregadas e menos energia a circular reforçaram o efeito condensador.
A partir daí, o ciclo alimentou-se a si próprio: cada central que desligava retirava absorção de reativa, a tensão subia mais e a seguinte desligava. Em cerca de 90 segundos, a península passou do normal ao apagão. As simulações dos peritos mostram que mais margem de potência reativa teria evitado a cascata. A conta 4 mostra quanto pesou o fator de potência fixo.
E as hídricas? Não estavam todas ligadas — longe disso. Produziam cerca de 3,7 GW (11,4% da geração espanhola), uma percentagem até acima do habitual depois de uma primavera chuvosa. Mas isso corresponde a apenas cerca de um quinto da potência hídrica instalada em Espanha (estimativa a confirmar: cerca de 17 GW). A maioria estava parada, e uma central parada não segura tensão nenhuma. Havia máquinas capazes de segurar a rede, mas a maior parte não estava a rodar.
O excesso que hoje se deita fora
A mesma rede que não conseguiu segurar a tensão está a desperdiçar cada vez mais energia limpa, sobretudo em Espanha. Quando há produção a mais e a rede não a consegue escoar, o operador manda cortar parques solares e eólicos (curtailment).
- Em 2025, Espanha bateu o recorde de cortes não compensados, mais do dobro de 2024; no verão chegaram aos 11%.
- Só entre janeiro e junho de 2026 foram 2,5 TWh, o triplo do mesmo período de 2025.
- Depois do apagão, a Red Eléctrica passou a operar com critérios de segurança mais apertados, o que aumentou os cortes e os custos de ajuste do sistema.
A Península tem sol e vento todo o ano: vai haver sempre excesso, e não só ao meio-dia — com vento forte, também à noite e no inverno. A escala percebe-se pelo parque instalado e pelo que produziu em 2025:
| 2025 | Eólica: potência | Eólica: produção | Solar (grandes centrais): potência | Solar: produção | H₂ por cada 1% da produção |
|---|---|---|---|---|---|
| Espanha | 32,9 GW (1.454 parques) | 58,8 TWh | 41,0 GW | 50,2 TWh | ≈ 19 800 t |
| Portugal | 6,0 GW (2.861 aerogeradores) | 13,5 TWh | ≈ 3,7 GW | ≈ 5,8 TWh | ≈ 3 500 t |
| Península | ≈ 38,9 GW | ≈ 72,3 TWh | ≈ 44,7 GW | ≈ 56,0 TWh | ≈ 23 300 t |
A última coluna mostra a ordem de grandeza: cada 1% da produção eólica e solar da península transformado em hidrogénio dá cerca de 23 000 t por ano. Só a energia cortada em Espanha no primeiro semestre de 2026 (2,5 TWh) daria cerca de 45 500 t; ao ritmo desse semestre, o ano inteiro daria perto de 91 000 t.
Valores indicativos: a potência solar espanhola é o total da Red Eléctrica (50,0 GW) menos o autoconsumo (9,0 GW); a potência solar portuguesa é aproximada e a sua produção é estimada a partir da quota de 11% do consumo indicada pela REN. Hidrogénio calculado a 55 kWh por kg.
A nossa tese: o excesso que segura a rede
Os parques solares e eólicos produzem hidrogénio sempre, e mais quando há excesso. Esse hidrogénio volta a ser eletricidade em turbinas, primeiro nas centrais a gás e depois nos próprios parques. As hídricas seguram a rede. O excesso deixa de se perder e a rede deixa de cair.
Em detalhe:
- Hidrogénio em todos os grandes parques solares e eólicos. Os eletrolisadores trabalham sempre que há sol ou vento: em pequena quantidade quando não há excesso, com a rede toda a funcionar, e mais quando há excesso. À noite, os parques solares param; os eólicos continuam se houver vento. Os eletrolisadores ligam-se à rede por eletrónica de potência e, na nossa tese, têm obrigatoriamente controlo de tensão: absorvem potência reativa quando a tensão sobe.
- Hídricas em pleno funcionamento a segurar a rede. As que podem — umas estarão em manutenção ou com pouco caudal — alimentam a rede sem pôr em causa a procura. São máquinas síncronas: dão inércia e seguram a tensão. A 28 de abril, a maioria estava parada.
- O hidrogénio volta à rede em turbinas. Uma turbina a hidrogénio é também uma máquina síncrona, como uma hídrica. Primeiro, adaptam-se as centrais a gás que já existem; depois, instalam-se turbinas nos próprios parques. Quando falta água às hídricas, são as turbinas que seguram a rede.
- Baterias a completar o conjunto, respondendo em milissegundos.
O dia 28 de abril é só um exemplo. Com este conjunto a funcionar nesse dia, a subida de tensão em cascata teria tido quem a travasse, e o excesso daquele meio-dia — cerca de 6.800 MW, ou 124 toneladas de hidrogénio por hora — teria sido aproveitado. Mas a tese vale para todo o ano: as solares produzem hidrogénio durante o dia, as eólicas de dia e de noite sempre que há vento, e o excesso, venha do sol ou do vento, aumenta a produção.
Porque produzir sempre, e não só com excesso
O hidrogénio verde é limpo, mas caro de produzir: na Península, o índice ibérico IBHYX estima hoje cerca de 5,85 €/kg, contra cerca de 2,50 €/kg do hidrogénio "cinzento", feito a partir de gás natural. A nossa tese baixa esse custo de duas formas: usa energia que hoje vale zero e põe os eletrolisadores a trabalhar muitas horas por ano. A conta 10 mostra o resultado: usar só o excesso fica caro, porque o eletrolisador passa muito tempo parado; produzir sempre, com o excesso por cima, faz descer o custo para cerca de 3,9 €/kg.
O hidrogénio de volta à rede
Converter hidrogénio em eletricidade custa energia:
Mas essa eletricidade chega quando falta sol, vento ou água, e vale muito mais nessa altura. As contas 9 e 11 mostram quanta volta à rede e quanto custa. E há duas formas de a produzir: em pilhas de combustível, mais eficientes, ou em turbinas. Para a nossa tese, a turbina é a melhor, porque é uma máquina síncrona: segura a tensão e dá inércia por natureza, tal como uma hídrica.
Celorico da Beira: a porta de saída do hidrogénio português
Celorico da Beira, no distrito da Guarda, é o ponto de partida do CelZa, o hidrogenoduto que vai ligar Portugal a Zamora, em Espanha, para exportar para a Europa o hidrogénio renovável produzido em Portugal.
| CelZa | |
|---|---|
| Traçado | Celorico da Beira → Zamora (cerca de 185 km em Portugal, até Vale de Frades, Vimioso) |
| Extensão total | 270 km |
| Capacidade | 0,75 milhões de toneladas de hidrogénio por ano |
| Orçamento | cerca de 350 milhões de euros |
| Calendário | consulta ambiental no 4.º trimestre de 2026, decisão de investimento em 2027, entrada em serviço prevista para 2032 |
O CelZa é a metade terrestre do H2Med, o primeiro corredor de hidrogénio renovável da União Europeia, que continua por mar de Barcelona a Marselha e daí para a Alemanha. Em abril de 2026, a UE renovou-lhe o estatuto de Projeto de Interesse Comum, o que abre a porta a financiamento europeu. Em Portugal, o eixo nacional de transporte de hidrogénio deverá chegar a Celorico a partir de Cantanhede e Mangualde.
O hidrogenoduto não está ligado à rede elétrica, mas ajuda-a: dá destino ao hidrogénio dos parques e, por isso, à energia que hoje se corta. Nem todos concordam com a exportação: a associação ambientalista Zero defende que o hidrogénio verde deve ser usado perto de onde é produzido.
O complemento rápido: baterias e a lição da Austrália
As baterias de grande escala são contentores de células de lítio, com dezenas ou centenas de MW, junto a subestações ou parques solares. Guardam o excesso do meio-dia para o fim da tarde e reagem em milissegundos. Com inversores grid-forming, conseguem também absorver potência reativa. O limite: guardam energia para poucas horas, não para estações do ano — por isso completam o hidrogénio, não o substituem.
O exemplo clássico é a Hornsdale Power Reserve, no Sul da Austrália. Depois de um grande apagão em 2016, Elon Musk apostou que a Tesla a construía em 100 dias após o contrato, ou seria de graça. Cumpriu:
- Entrou em serviço a 1 de dezembro de 2017, com 100 MW / 129 MWh; mais tarde foi ampliada para 150 MW / 194 MWh.
- Responde a falhas em menos de 100 milissegundos. Em dezembro de 2017 injetou energia na rede quando uma central a carvão disparou, antes de qualquer outra resposta.
- No primeiro ano poupou cerca de 40 milhões de dólares australianos em custos de estabilização da rede e fez cair cerca de 75% o preço desses serviços.
E na Península? O apagão acelerou o que estava parado:
- Portugal tinha apenas cerca de 13 MW de baterias. O Governo anunciou um plano de 400 milhões de euros, com um leilão de 750 MVA de baterias e 137 milhões para modernizar o controlo da rede.
- Espanha tinha 221 MW de baterias instaladas em maio de 2026 e aprovou uma linha de 700 milhões de euros que deverá permitir 2,5 a 3,5 GW de novo armazenamento.
- As regras mudaram. Em junho de 2025, o regulador espanhol (CNMC) aprovou o novo procedimento de controlo de tensão, que abre a porta a solares e eólicas; em 2026 reforçou-o com incentivos para que as renováveis deixem o fator de potência fixo e passem a controlar a tensão de forma dinâmica.
As contas: ordens de grandeza para uma tese
Esta secção põe números em cada passo do raciocínio, pela mesma ordem do artigo: as contas 1 a 4 mostram o problema (a física da linha e a cascata); as contas 5 a 11, a tese (quem alimenta a rede, quanto hidrogénio se produz, quanta eletricidade volta à rede e quanto custa). As quatro primeiras usam valores típicos de uma linha aérea de 400 kV; as restantes, dados reais da península e hipóteses de trabalho, assinaladas em cada conta. São ordens de grandeza, não medições da rede espanhola.
| Parâmetro | Valor usado | Nota |
|---|---|---|
| Tensão nominal (V) | 400 kV | rede de transporte |
| Frequência (f) | 50 Hz | ω = 2πf ≈ 314 rad/s |
| Capacidade da linha (C) | 12,5 nF/km | valor típico de linha aérea |
| Impedância característica (Zc) | 280 Ω | valor típico de linha aérea |
| Consumo de um eletrolisador | 55 kWh por kg de H₂ | sistema completo, valor típico |
| Energia contida no hidrogénio | 33,3 kWh por kg | poder calorífico inferior |
| Eficiência da turbina a hidrogénio | 55% | ciclo combinado, valor típico |
O problema
1. Quanta potência reativa gera uma linha?
Cada 100 km de linha de 400 kV injetam cerca de 63 Mvar, com ou sem consumo.
2. A partir de que carga deixa de ser condensador?
Com 200 MW a passar, a linha ainda injeta cerca de 55 Mvar por 100 km — quase como se estivesse vazia, porque o efeito indutivo cresce com o quadrado da carga. Só acima de cerca de 570 MW passa a consumir reativa. Ao meio-dia de 28 de abril, com procura moderada, muitas linhas estavam na zona da esquerda.
3. Quanto sobe a tensão numa linha sem carga? (efeito Ferranti)
Numa linha de 300 km sem carga, a tensão no extremo sobe cerca de 5,7%: de 400 kV para cerca de 423 kV. Com 200 km, cerca de 2,5%.
4. Quanta absorção se perdeu com o fator de potência fixo?
Assumindo, como exemplo, renováveis a absorver reativa com cos φ = 0,98:
A queda de cerca de 500 MW registada pelos peritos terá retirado, nesta hipótese, cerca de 100 Mvar de absorção: o equivalente à reativa gerada por cerca de 160 km de linha de 400 kV, em menos de um minuto.
A tese
5. As centrais síncronas chegam para alimentar o consumo?
Na tese, são as centrais síncronas que alimentam a rede enquanto solar e eólica produzem hidrogénio. Potência síncrona instalada em Espanha no final de 2025:
| Centrais síncronas | Potência instalada |
|---|---|
| Hídricas | ≈ 17,0 GW (11,3% do parque, Red Eléctrica) |
| Ciclo combinado (hoje a gás, adaptável a hidrogénio) | ≈ 26,2 GW (17,4% do parque, Red Eléctrica) |
| Nuclear (7 reatores) | ≈ 7 GW (valor aproximado) |
| Total | ≈ 50 GW |
Há cerca do dobro da potência necessária. Nesse dia estavam a produzir apenas cerca de 8,1 GW (hídrica 3,7, nuclear 3,4, gás 1,0). Para a tese, faltariam cerca de 17 GW de centrais síncronas a rodar: primeiro as hídricas que tivessem água, depois o ciclo combinado — hoje a gás, amanhã a hidrogénio.
6. Que frota de eletrolisadores seria precisa?
Nesse meio-dia, solar e eólica produziam cerca de 20,6 GW. Com as síncronas a alimentar o consumo, essa produção iria para hidrogénio:
Para absorver, no limite, toda a produção solar e eólica de um meio-dia assim, seriam precisos cerca de 20 GW de eletrolisadores nos grandes parques. É a dimensão máxima; no resto do tempo trabalham abaixo dela.
7. Quanto hidrogénio por ano?
Duas parcelas: a produção contínua (hipótese de trabalho: 5% da produção eólica e solar da península, ao longo de todo o ano, mesmo sem excesso) e o excesso (a energia que hoje se corta em Espanha).
| Parcela | Energia | Hidrogénio |
|---|---|---|
| Produção contínua (5% de 128 TWh) | ≈ 6,4 TWh | ≈ 117 000 t |
| Excesso (cortes previstos para 2026, Aurora) | 3,05 TWh | ≈ 55 500 t |
| Total | ≈ 9,5 TWh | ≈ 172 000 t |
Se os cortes chegarem a cerca de 5 TWh, ao ritmo do primeiro semestre de 2026, o total sobe para cerca de 208 000 t. Hoje aproveita-se 0% do excesso; com a tese, todo.
8. Os eletrolisadores ajudam a segurar a rede?
Um eletrolisador de 100 MW alimentado por 150 km de linha ajuda pouco só por consumir:
Com o conversor a controlar a tensão (cos φ = 0,95), absorve diretamente cerca de dez vezes mais:
A frota de cerca de 20 GW da conta 6 poderia absorver cerca de 6,8 Gvar — a reativa gerada por cerca de 10 800 km de linha de 400 kV, e cerca de 68 vezes os 100 Mvar perdidos na conta 4. É por isso que, na tese, o controlo de tensão é obrigatório em todos os eletrolisadores.
9. Quanta eletricidade volta à rede?
Cada quilo de hidrogénio devolve cerca de 18,3 kWh à rede: de cada 100 kWh postos no eletrolisador, voltam cerca de 33. Com as 172 000 t da conta 7, são cerca de 3,2 TWh por ano de volta à rede (3,8 TWh com 5 TWh de cortes) — nas horas em que faltam sol, vento ou água, e através de máquinas síncronas que seguram a rede.
A trabalhar 2 000 horas por ano, isto ocupa cerca de 1,6 GW de turbinas, cerca de 6% do ciclo combinado espanhol. A primeira fase da tese cabe nas centrais a gás que já existem.
10. Quanto custa o hidrogénio da tese?
Pressupostos: eletrolisador a 1.600 €/kW (o valor usado pelo índice ibérico IBHYX), 20 anos de vida, juro de 7% e manutenção de 3% ao ano. Preços da eletricidade de 2025: 33 €/MWh em média nas horas solares e 65,5 €/MWh em média no mercado espanhol.
| Cenário | Horas por ano | Eletricidade | Custo do hidrogénio |
|---|---|---|---|
| Só nas horas de excesso | 1.500 h | grátis | ≈ 7,30 €/kg |
| Nossa tese: produção contínua + excesso | 4.000 h | grátis no excesso, 33 €/MWh no resto | ≈ 3,87 €/kg |
| Produção convencional | 5.000 h | 65,5 €/MWh | ≈ 5,79 €/kg |
| Nossa tese com eletrolisadores a 800 €/kW | 4.000 h | igual | ≈ 2,50 €/kg |
O cenário convencional dá praticamente o valor do índice ibérico (5,85 €/kg), o que confirma a conta. Usar só o excesso fica caro, porque o eletrolisador passa a maior parte do ano parado. Produzir sempre, com o excesso por cima, baixa o custo em cerca de um terço. Com eletrolisadores a metade do preço, chega ao nível do hidrogénio cinzento (cerca de 2,50 €/kg). A conta não inclui ligação à rede, armazenamento nem transporte do hidrogénio.
11. Quanto custa a eletricidade que volta à rede?
Em 2025, o preço médio nas horas de ponta da noite (20h–24h) foi de cerca de 100,6 €/MWh. Ou seja: vendida só como energia, a eletricidade do hidrogénio ainda não compensa. Compensa de três formas, que se somam:
- Eletrolisadores mais baratos: a 800 €/kW, o combustível desce para cerca de 137 €/MWh.
- Pagar o serviço de segurar a rede: inércia e controlo de tensão, que Espanha já paga hoje sobretudo a centrais a gás (os custos de ajuste do sistema chegaram a 3,77 mil milhões de euros em 2025).
- Anos secos e de pouco vento, quando a eletricidade é mais cara e as turbinas substituem as hídricas.
Há potência síncrona de sobra para alimentar a rede (conta 5); os eletrolisadores dos parques aproveitam o excesso e seguram a tensão (contas 6 a 8); o hidrogénio feito assim é cerca de um terço mais barato do que o convencional (conta 10); e a eletricidade que volta à rede só compensa se o serviço de a segurar também for pago (conta 11). Este é o ponto que uma tese teria de aprofundar.
Conclusão: o raciocínio completo
O apagão ibérico não foi um mistério nem um castigo das renováveis. Foi física de rede mal gerida:
- Ao meio-dia havia muito sol, procura moderada e linhas de alta tensão pouco carregadas.
- Com pouca intensidade a circular, o efeito capacitivo das linhas dominou e gerou potência reativa, que faz subir a tensão sem alimentar nenhum consumo.
- Para a segurar, faltavam centrais síncronas ligadas (a maioria das hídricas estava parada), e as que estavam não absorveram o que deviam; as renováveis, em fator de potência fixo, não reagiam à subida de tensão; as reatâncias disponíveis ficaram paradas.
- A tensão subiu, as centrais desligaram-se, a absorção caiu ainda mais — e em 90 segundos a península apagou-se.
Os parques solares e eólicos produzem hidrogénio sempre, e mais quando há excesso; esse hidrogénio volta a ser eletricidade em turbinas, primeiro nas centrais a gás e depois nos parques; as hídricas seguram a rede. O excesso deixa de se perder, a rede deixa de cair e o hidrogénio verde fica mais barato.
Os resultados apontam para a viabilidade da tese. A potência síncrona instalada excede largamente a procura (conta 5), o excedente renovável passa a ser integralmente valorizado (conta 7) e o custo nivelado do hidrogénio verde reduz-se em cerca de um terço face à produção convencional (conta 10). A principal limitação reside na reconversão em eletricidade: avaliada apenas como energia, o seu custo excede o preço médio das horas de ponta (conta 11). Esta limitação é, contudo, ultrapassável se os serviços de estabilidade da rede — inércia e controlo de tensão, já hoje remunerados em Espanha — forem igualmente valorizados, e tenderá a atenuar-se com a redução do custo dos eletrolisadores. O investimento inicial é elevado, mas recuperável. Importa, por fim, ressalvar que o apagão envolveu também fenómenos oscilatórios e proteções reguladas abaixo dos limites regulamentares; a sua correção, prevista nas recomendações oficiais, deve decorrer em paralelo.
Fontes
- ENTSO-E — página do apagão de 28 de abril de 2025 e relatório final
- Reuters (via AOL) — Iberian blackout was caused by multiple factors
- pv magazine — Entso-E report finds systemic failures behind 2025 Iberian blackout
- POWER Magazine — Anatomy of a Blackout
- Renewable Energy World — Final ENTSO-E report sheds light on multiple factors
- heise — ENTSO-E presents final report
- MITECO — Informe do Comité de análise da crise elétrica de 28 de abril (junho de 2025)
- El Independiente — Informe do Governo sobre o apagão
- Energías Renovables — Comparência da presidente da Red Eléctrica no Senado
- elDiario.es — O apagão põe o foco no mix energético
- OBSENERGIA — Houve excesso de renováveis antes do apagão?
- RTP — ERSE avalia eventuais compensações
- RTP — Apagão ibérico teve causa inédita
- pv magazine — High PV curtailment expected in Spain through 2027
- Xataka — A Espanha sobra sol
- Wikipedia — Roundtrip efficiency
- Norton Rose Fulbright — Storage efficiencies (dados EIA)
- Wikipedia — Hornsdale Power Reserve
- pv magazine — Tesla big battery saves $40 million
- Reuters (via bbc.bm) — Portugal to invest in grid and batteries
- ESS News — Portugal energy storage auction
- Jornal de Negócios — Lei pós-apagão em Espanha e apoio de 700 M€ ao armazenamento
- CNMC — Renováveis no controlo de tensão (julho de 2026)
- H2Med — CelZa: ligação de hidrogénio verde entre Portugal e Espanha
- H2Med — Estatuto de Projeto de Interesse Comum renovado (abril de 2026)
- ERSE — Proposta de PDIRG 2026-2035, apêndice CelZa e Eixo Nacional de Hidrogénio
- Pplware — Zero e os projetos portugueses de hidrogénio
- Energías Renovables — Informe do Sistema Elétrico 2025 da Red Eléctrica
- Energías Renovables — España roza los 33 gigas eólicos (dados AEE)
- pv magazine España — España supera los 50 GW de potencia fotovoltaica
- APREN/INEGI — Parques eólicos em Portugal (2025)
- APREN — Análise a 2025
- Jornal Económico — Potência solar em Portugal
- Forbes España — Produção fotovoltaica em Espanha em 2025
- Red Eléctrica — Informe do Sistema Elétrico 2025 (potência instalada)
- Energías Renovables — Preço da eletricidade em Espanha em 2025
- Euronews — Centrais nucleares espanholas e prolongamento de Almaraz
- Siemens Energy — Turbinas a hidrogénio
- h2-view — Índice ibérico de hidrogénio IBHYX
- Quantum Commodity Intelligence — Hidrogénio cinzento acima de 2,50 €/kg
- Sábado/REN — Produção renovável em Portugal em 2025


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